Por: Prof. Dr. Belmiro Vasconcelos
Presidente do Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Buco-Maxilo-Facial
Imagine que você sofreu um trauma na face ou precisa de uma cirurgia ortognática para corrigir uma deformidade funcional grave. Você escolheu seu cirurgião bucomaxilofacial, passou por consultas, realizou exames complexos, planejou virtualmente cada milímetro do procedimento e discutiu os materiais necessários (como placas e parafusos de titânio) para garantir a estabilidade do seu esqueleto facial. Tudo alinhado. E então, dias antes do procedimento, uma decisão puramente administrativa, que você não viu e que o seu profissional assistente não autorizou, barra o material, glosa o hospital ou nega o procedimento. Não por uma razão clínica, mas por uma “razão de gestão”.
Pode parecer um detalhe burocrático ou operacional, mas não é. Trata-se de um problema que avança agressivamente na saúde suplementar brasileira e que sufoca a Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial: a verticalização e a imposição de barreiras corporativas sobre o ato cirúrgico. Quando um mesmo grupo econômico controla o plano de saúde, o hospital, as redes de atendimento e a auditoria que autoriza, ou nega, os procedimentos, uma pergunta central precisa ser feita: onde fica o paciente?
A busca por eficiência organizacional é legítima, mas se torna perigosa quando a lógica do custo financeiro passa a se sobrepor à lógica do cuidado à vida. Em nossa especialidade, decisões sobre o uso de materiais especiais (OPME) não são caprichos: são determinantes para o sucesso funcional da mastigação, da respiração e da harmonia facial do paciente. Quando exames essenciais são restringidos, materiais de qualidade comprovada são glosados e profissionais de excelência são descredenciados apenas por defenderem o melhor para o paciente, a saúde é gravemente ameaçada.
É aqui que resgatamos um princípio que pertence a toda a sociedade: a autonomia do profissional de saúde. Ela não é um privilégio corporativo, mas uma salvaguarda do paciente. Existe para que a decisão cirúrgica seja guiada estritamente pela ciência, pela ética e pela anatomia singular de cada pessoa, nunca pelos interesses econômicos e pelas planilhas de metas de quem financia o sistema. Os códigos de ética profissional são categóricos: nenhum interesse financeiro ou patronal pode interferir na escolha do melhor tratamento para o paciente.
Há, ainda, o lado invisível dessa engrenagem: a precarização e o desrespeito aos cirurgiões bucomaxilofaciais. Muitos profissionais enfrentam tabelas de honorários defasadas há anos, pressões administrativas absurdas e contratos frágeis. Um cirurgião pressionado, limitado em suas escolhas técnicas e cerceado em sua autonomia e em suas bases científicas é, em última análise, um risco para o próprio cidadão que está na mesa de operação.
Garantir a livre concorrência, o respeito aos prestadores independentes e a justa cobertura contratual é um dever ético e legal. A saúde privada precisa compreender que o beneficiário paga por assistência real, por segurança e por resolutividade, não por negativas padronizadas ou redes esvaziadas que inviabilizam procedimentos complexos.
O Colégio Brasileiro de Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial mantém-se firme na defesa de que a relação entre o cirurgião e seu paciente é sagrada. Ela não pode ser transformada em um balcão de negócios ou em um simples centro de custo.
Portanto, voltamos à pergunta do início: quem decide sobre a sua cirurgia? Que a resposta continue sendo você e o seu cirurgião bucomaxilofacial, guiados pela ciência, pela técnica precisa e pela mútua confiança. Nunca uma planilha de auditoria.